
Apagaram-se as luzes.
O sol curva-se à lua, dando espaço aos luminares.
O palco que dantes aspirava e inspirava risos, insolitamente, engolfa-se no alarmante silêncio.
A tenda grandiosa, criada para doar alegria, subitamente esfria-se no crepúsculo, ao findar de outro dia —
quando aplausos, sensações, humor e crianças dormem.
É então que o artista rompe a alvorada, isolado no obscuro.
O raiar acarreta outro amargor:
ser o personagem, o mágico, a felicidade.
A aflição de reinventar um Eu a cada novo espetáculo
e de sucumbir após o encerramento —
diante das cortinas que indicam o término
da hilária e solitária dramaturgia.
É no exílio —
perdoe-me!
No camarote —
que as manchas surgem: o borrão, a tinta, a máscara.
O artista se purga em lágrimas,
e o espelho parece ofender, dizer, falar…
Ofender.
Dizer.
Falar!
Seu único desejo é tal liberdade —
a simples humanidade de poder brigar, falar mal, gritar…
GRITAR!
Exausto dessa solidão mundana,
reza estar sozinho de si mesmo:
libertar-se do personagem, desprender-se,
esvaziar-se,
gritar, gritar!
Ah!
Quão traumático é sorrir quando se precisa chorar;
divertir-se quando se quer prantear;
abraçar quando já não se goza o prazer de amar.
Contudo, amanhã as chamas do picadeiro serão ateadas novamente.
Todos virão — de todos os cantos —
assistir ao espetáculo do artista.
Cabe ao itinerante vestir o surrado uniforme colorido,
a peruca, o nariz, o sapato…
e pintar o rosto de branco, vermelho —
palhaço.
Fantasiar que a noite foi um surto,
um acaso, uma alucinação.
E crer que não sente
a dor dos artistas de,
em vez de viver,
interpretar.
Por Velho Marujo


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