Apagaram-se as luzes do picadeiro.
O palco que dantes aspirava e inspirava risos, de súbito, jaz no silêncio da solidão.
A grande tenda, nascida para doar alegria, sente-se fria ao cair da noite, ao findar de outro dia — quando aplausos, sensações, humor e crianças dormem; quando o artista se vê rompendo a madrugada sozinho, no obscuro.O raiar do sol traz apenas outra dor: a de ter de ser o personagem, o mágico, a “felicidade”.
A dor de ter de nascer a cada novo espetáculo e de se ver morrer após o fim deste — após as cortinas encerrarem a alegre e solitária dramaturgia.
E é no exílio — melhor, no camarote — que as manchas surgem: o borrão, a tinta, a máscara.
É quando o artista lava o rosto nas próprias lágrimas, e o espelho parece ofender, dizer, falar…
Ofender, dizer, falar.
Tudo o que o artista deseja é tal liberdade: isso mesmo — ele quer brigar, xingar, gritar, gritar…
Quer se ver só, mas cansado de estar sozinho no mundo; já não deseja mais a solidão.
Quer apenas estar sozinho de si mesmo — libertar-se do personagem, desprender-se, esvaziar-se, gritar, gritar…
Ah! E como deve ser traumático sorrir quando se precisa chorar; divertir-se quando se quer prantear; abraçar quando já não se sabe o prazer de amar.
Ah…
Mas amanhã as luzes do picadeiro acenderão novamente.
Todos virão — de todos os cantos — assistir ao espetáculo do artista.
Então cabe a ele vestir seu terno colorido, sua peruca e pintar o rosto de branco e vermelho — palhaço.
Fingir que essa noite foi um surto, um acaso, uma ilusão, e que não sente a dor de ser um personagem —
de, em vez de viver a vida, interpretá-la.
Por Velho Marujo


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