
Ọ̀ṣun,
Saudade de quando me acordava para vê-la bailar no canto da casa.
Tão menino, amedrontado, arregalava os pequeninos olhos quando, ao levantar-me naquelas noites, te observava no fundo da sala — de longos cabelos pretos, olhar negro, arrebatador.
Me encarava, sorria, brilhava como o ouro de Mansa Musa, símbolo da grandeza ancestral. Inspirava riqueza como o rei do Mali, como as pedras de Serra Leoa.
Mais bela que mil Sabás.
Eterna Ìyálòdé.
Rainha de Ọ̀yọ́̀!
Chamava-me pelo nome e dizia:
— Não tenha medo!
E estendia os braços, como a esperar um abraço daquele que fizesse nossos corações, enfim, se reencontrarem.
Éramos como mãe e filho — quase num sentido absurdamente literal.
Lembra-se da primeira vez que meus pés tocaram um Ilé?
Meu espírito se desprendeu, o corpo adormeceu, e senti-me como se pisasse o Ọ̀run.
Não sentia mais medo — havia lhe encontrado.
Descobri um amor incompreensível para nós, que estamos presos a esta vulgar e limitada realidade do Ayé.
Lembro-me do primeiro Bọ́rì — eu tremia que nem vara verde.
Toda a cerimônia estava preparada, todos a postos para iniciar os ritos.
Foi quando, não menos que de repente, a senhora dançou no barracão.
Eu, deitado na esteira, nada entendia — até aquele dia apenas a via em minhas visões noturnas.
Vê-la ali, assustadoramente tão perto, tão “viva”, era transcendental.
A senhora — como sempre fazia nas aparições — estendeu-me as mãos, segurou-me forte, encostou meu Orí em tua barriga e disse a todos:
— Ele não pode fazer as coisas antes de levá-lo às águas!
Ergueu-me pelos braços, andou comigo até a esteira e, num gesto esplêndido de amor maternal, ajoelhou-se comigo.
Ensinou-me como me deitar, puxou o lençol branco por sobre mim, acendeu uma vela à altura do meu Orí e ficou ali — até eu dormir.
Na manhã seguinte, logo cedo, fomos à represa.
A água era gélida, mas, quando mergulhei, foi indescritível.
Parecia que havia me transportado até Òṣogbo.
Senti algo me puxar rio adentro, caí de costas nas águas e uma energia fortíssima cobriu o lugar.
Quando saí, todos comentavam, pasmos:
— Vocês viram? Ela veio por baixo e puxou ele pelos pés!
E pensar que persegui a senhora e meus ancestrais por anos…
Eu os demonizava, os considerava maus.
Diziam que eram perigosos, que eu devia rejeitar minha ancestralidade.
Que esta herança familiar era uma maldição.
E aqueles que, à noite, conversavam comigo ao redor da cama — como a proteger-me, como caçadores que guardam sua aldeia — diziam que eram anjos caídos. O diabo cristão.
Foram vinte e cinco anos de intolerância e medo.
Um tempo de escuridão sobre meu próprio espelho.
Que a senhora, meu pai Òbàtálá, meu Ègbé Ọ̀run, meu pai Ògún e meu pai Èṣù possam perdoar-me.
Que eu possa ser digno de todo amor e àṣẹ que os senhores têm por mim.
Prometo que, por onde for, serei um reflexo de tuas águas.
Porque não sei bem se, assim como diz a canção, “nessa cidade todo mundo é de Ọ̀ṣun” —
mas não me restam dúvidas: eu sou.
E sinto-me como teu filho primogênito —
o homem negro mais sortudo do Ayé.
Como se fosse o primeiro a te encontrar.
Por Velho Marujo
“Dizem que o diabo veio, nos barcos dos europeus, desde então, o povo esqueceu, que entre os meus, todo mundo era deus.” (Por Emicida, Mufete; Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, 2016)


Deixe um comentário