
Licença, senhor!
— Opa!
— O senhor pode comprar uma caixinha de balas? Tô na rua, vendo pra levantar um dinheiro.
— Quanto é?
— Cinco reais.
— Fechou, tenho trocado.
— Valeu! Mas tem como comprar pra mim na loja? Não deixam eu entrar.
— Onde?
— Ali, do outro lado.
— Bora lá.
— Obrigado! Ó, não vou mentir: eu vendo bala pra comer, mas também gasto com droga.
— Não te julgo. Já vivi isso. Graças a Nzambi, me levantei.
— Sério? Nem parece.
— É, irmão. O mundo dá voltas. Ontem eu era ajudado, hoje ajudo. Amanhã é você ajudando outro. Mas e aí, como caiu nessa?
— Cocaína.
— Pega pesado.
— Crack é pior! Usei uma vez, vi bicho, fiquei doido.
— Faz tempo que usa?
— Uns dois anos. Tenho 17.
— E na rua?
— Quatro meses. Sou de Santos.
— E veio parar aqui como?
— Briguei com meu padrasto, quebrei a TV, ele me expulsou. Minha mãe não fez nada.
— E por que São Paulo?
— Lá tava difícil de comprar. Disseram que aqui era mais barato. Vim. Uma pá de gente faz isso. Aqui é mais fácil arrumar droga, comida, até albergue.
— Entendi. Mas pensa bem, mano. Eu também me perdi, a diferença é que era no álcool. Hoje tô trampando, estudando de novo. Não foi sozinho: minha mãe, meus Orixás, meus ancestrais me seguraram. Procura ajuda: ONG, CAPS, terreiro, igreja… sempre tem alguém.
— Eu conheço o CAPS, já fui. Só não quero ficar internado.
— CAPS não interna, é outro esquema. Mas se não curtir, tem outras opções. Se quiser se levantar, não vai faltar mão estendida.
— Tô ligado. Qualquer coisa dá um salve. Se não tiver aqui vendendo bala, tô lá no Extra. Geral me conhece.
— Fechou. A gente se tromba.
— Pega uma bala pra você. É de eucalipto!
— Pode crer.
— Falou, mano!
— Falou, pai!
Por Velho Marujo


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